Apartamentos menores, aluguéis mais caros e rotinas que cabem em um único cômodo mudaram a forma como as pessoas ocupam a casa. Nesse cenário, os móveis multifuncionais deixaram de ser um recurso pontual para virar parte da estrutura de qualquer projeto residencial, do estúdio compacto à casa que precisa acomodar home office, lazer e descanso na mesma metragem.
Para Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, essa mudança pede um raciocínio diferente do que orientava a decoração convencional. Em vez de escolher peças isoladas depois que o layout já está pronto, o projeto passa a nascer da pergunta sobre quantas funções cada metro quadrado precisa cumprir ao longo do dia.
O que mudou na lógica de ocupação da casa?
Durante décadas, a divisão dos cômodos seguia uma função fixa: sala para receber, quarto para dormir e escritório para trabalhar. A separação rígida fazia sentido quando as casas tinham metragem sobrando e as rotinas eram mais previsíveis, com cada atividade isolada em seu próprio cômodo.
Hoje a realidade é outra. Um mesmo ambiente recebe reunião de trabalho pela manhã, refeição ao meio-dia e convívio à noite, sem parede que separe uma atividade da outra. Os móveis multifuncionais respondem a essa sobreposição de usos, mas só funcionam bem quando o projeto já prevê essa rotatividade desde o desenho inicial.
Como a multifuncionalidade entra no projeto antes da compra?
Escolher um sofá-cama ou uma mesa retrátil depois que o ambiente já está montado costuma gerar frustração, porque a peça precisa se encaixar em restrições que já foram fechadas. Daugliesi descreve esse erro como o mais comum entre quem tenta resolver a falta de espaço comprando um móvel isolado, sem repensar a circulação ao redor dele.

O caminho mais eficiente começa pelo dimensionamento: qual é o raio livre necessário para abrir uma mesa extensível, quanto espaço a cama precisa para virar sofá sem esbarrar em outro móvel, onde ficam as tomadas que vão alimentar uma estação de trabalho improvisada. Cálculos como esses, feitos antes da compra, evitam retrabalho e definem se a peça realmente resolve o problema ou só o desloca para outro canto do cômodo. Um projeto que ignora essa etapa costuma resultar em móvel bonito na loja e travado em casa, sem espaço de manobra para cumprir a função extra que justificou a compra.
Os limites entre praticidade e funcionalidade real
Nem todo móvel anunciado como multifuncional entrega o que promete. Uma estante que também é escrivaninha só funciona se o usuário abrir mão de parte do acervo de livros, e um banco baú perde a graça quando o espaço de guarda vira depósito de itens que ninguém organiza.
Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, o critério real de escolha não é a quantidade de funções que a peça acumula, e sim a frequência de uso de cada uma delas. Um móvel com três funções, sendo duas raramente usadas, tende a pesar mais na manutenção do que ajudar na rotina. Por isso, o projeto precisa mapear os hábitos reais de quem mora ali antes de fechar a lista de compras.
Uma casa pensada como sistema, não como coleção de móveis
A multifuncionalidade bem aplicada muda o jeito de enxergar a casa inteira. Em vez de um conjunto de cômodos com função fixa, o espaço passa a operar como um sistema que se reconfigura ao longo do dia, com peças que mudam de papel conforme a necessidade muda. Uma mesa vira bancada de trabalho pela manhã e mesa de jantar à noite; um painel pode esconder cama, escritório e closet sem parecer improvisado, e cada peça só cumpre esse papel quando pensada em relação às vizinhas, com espaço de manobra e tomada ao alcance de quem usa o ambiente ao longo do dia.
Esse deslocamento de olhar, na leitura de Daugliesi Giacomasi Souza, vale tanto para quem mora em 30 metros quadrados quanto para quem tem espaço de sobra e busca mais flexibilidade no uso da casa. O ganho não está só em economizar área, mas em construir um ambiente que acompanha as mudanças de rotina sem exigir reforma a cada nova fase.










