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Relatório da intervenção no Consórcio Guaicurus aponta falhas graves e Adriane promete apurar responsabilidades

Documento de 177 páginas entregue à Prefeitura e à Câmara recomenda reestruturar o contrato do transporte coletivo de Campo Grande; frota tem idade média de 10,4 anos

O relatório preliminar dos primeiros 90 dias de intervenção no transporte coletivo de Campo Grande foi entregue na terça-feira (22) à Prefeitura e à Câmara Municipal. O diagnóstico aponta falhas graves de gestão no Consórcio Guaicurus e recomenda uma reestruturação do contrato de concessão, abrindo uma nova etapa na discussão sobre o futuro dos ônibus da Capital.

Após receber o documento, a prefeita Adriane Lopes (PP) afirmou que as responsabilidades pelas falhas encontradas ainda serão apuradas pelo município e que os possíveis responsáveis terão direito de apresentar suas versões. A prefeitura, porém, não informou prazo para a conclusão dessa apuração nem quais procedimentos serão abertos a partir dos achados.

O que diz o diagnóstico da junta interventora

O relatório, assinado pelo interventor jurídico Alexandre Souza Moreira, reúne problemas que vão de ônibus envelhecidos e viagens não realizadas a despesas cuja ligação com o serviço ainda precisa ser esclarecida. Segundo a junta, a administração afastada tinha deficiências generalizadas de planejamento e controle, com reflexos na manutenção, na compra de peças, nas finanças e na qualidade das informações repassadas à fiscalização.

Entre os pontos descritos está a falta de orçamento anual aprovado e de regras claras para autorizar gastos. As compras, o estoque e o uso de peças estavam concentrados sob a mesma coordenação, e o Centro de Controle Operacional (CCO), o monitoramento e o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) respondiam ao mesmo comando, o que reduzia a independência na análise das reclamações dos passageiros.

Os efeitos aparecem nos números da operação. Entre 2023 e 2025, as viagens realizadas caíram cerca de 14% e a quilometragem percorrida recuou 15,2%, sem que a frota fosse reduzida. Em 2026, a idade média dos ônibus chegou a aproximadamente 10,4 anos, mais que o dobro do parâmetro de cinco anos previsto no contrato.

No campo financeiro, o documento reconhece a falta de caixa e registra valores a receber do poder público, mas também identifica pagamentos de dívidas antigas e movimentações entre empresas que precisam de auditoria. A junta não chega a uma conclusão sobre eventual desequilíbrio econômico-financeiro do contrato, o que significa que o relatório não define se há valor a ser recomposto às concessionárias nem estabelece aumento de tarifa. O texto aponta ainda que a revisão contratual prevista para 2019 não havia sido efetivamente implementada até a intervenção.

Prefeita fala em solução definitiva e condiciona troca de controle

Segundo Adriane, a intervenção foi necessária para manter os ônibus circulando, garantir salários e 13º dos trabalhadores e evitar uma nova paralisação como a registrada no fim de 2025. A medida começou em 16 de junho e, nos primeiros meses, priorizou recursos para folha de pagamento, compra de diesel e aquisição de peças.

A prefeita também comentou a possibilidade de mudança no controle do Consórcio Guaicurus. Qualquer decisão, segundo ela, dependerá de análise do município e da comprovação de capacidade técnica e financeira dos interessados, que terão de assumir compromissos com investimentos, renovação da frota e melhoria real do serviço. Adriane disse que o objetivo é buscar uma solução definitiva, com responsabilidade na gestão.

Parte das falhas já motivou mudanças internas. A intervenção retirou as compras da Coordenação Operacional, devolveu o comando das oficinas e dos almoxarifados aos gerentes das garagens e alterou a supervisão do controle operacional. O relatório registra a recuperação de parte das viagens previstas em julho e agosto, mas conclui que a crise não é apenas financeira e exige renovação de frota, manutenção planejada e fiscalização mais rigorosa do contrato.

Câmara cobra renovação da frota e acompanha negociação de venda

O vereador Dr. Lívio Leite (União Brasil), que atuou na CPI do Transporte, disse ao Campo Grande News que ainda não havia lido o relatório, mas que conversou com o interventor e cobrou como prioridade a continuidade do atendimento. Segundo o parlamentar, recebeu a garantia de que não haverá interrupção do serviço para a população.

Lívio relatou ainda que, de acordo com o interventor, dívidas estão sendo renegociadas, com vencimentos transferidos para o início do próximo ano. O vereador não detalhou valores nem quais obrigações fazem parte dessa negociação, ponto que deve seguir no radar dos parlamentares nas próximas semanas.

Sobre a venda ligada à operação do transporte, o vereador afirmou que a documentação está sendo finalizada para análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Depois dessa etapa, um plano de trabalho será apresentado à prefeita, que poderá exigir ajustes. Entre as cobranças que Lívio pretende levar ao Executivo estão ônibus com ar-condicionado, veículos movidos a energia renovável, revitalização de terminais e pontos de embarque e melhorias no asfalto das vias por onde passam as linhas.

Por ser preliminar, o relatório ainda pode ser complementado ou revisto, inclusive após auditoria independente. A identificação de responsáveis e a eventual aplicação de sanções ficarão a cargo de um processo administrativo separado, que deve definir os próximos capítulos de uma das principais pautas políticas da Capital.

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