Nunca foi tão fácil encontrar um fornecedor chinês, e nunca foi tão fácil errar na escolha. O empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, também conhecido como Fredy Restrito, CEO da Litoral Mobilidade, rede de lojas de veículos elétricos que atua com importação, convive com essa contradição em um mercado no qual scooters, bicicletas e motos elétricas dependem em grande parte da produção asiática.
A crença mais difundida entre quem pensa em importar é a de que o trabalho se resume a comparar catálogos e escolher o menor preço. Plataformas on-line reforçam essa impressão, com milhares de modelos, fotos bem produzidas e valores que parecem imbatíveis. A realidade do comércio com a China costuma ser bem mais complexa.
De onde vem a ideia de que basta comparar preços
A aproximação entre compradores brasileiros e fabricantes chineses ficou muito mais simples nos últimos anos. Fredy Restrito salienta que basta um celular para pedir cotações, trocar mensagens traduzidas automaticamente e receber amostras. Marketplaces de atacado e agentes de compra multiplicaram as portas de entrada para pequenos e médios empresários.
Essa facilidade cria a sensação de que a importação virou uma compra como outra qualquer. O problema é que a tela mostra o produto, mas esconde quase tudo o que determina se ele vai funcionar bem no Brasil: padrão de fabricação, controle de qualidade, disponibilidade de peças e capacidade do fornecedor de cumprir prazo com regularidade. Duas fábricas podem oferecer modelos visualmente idênticos e entregar produtos com baterias, componentes elétricos e durabilidade muito diferentes.
O que o preço de fábrica não mostra
Um modelo cotado bem abaixo da concorrência pode sair caro quando chega ao destino. Ao valor de fábrica somam-se frete internacional, seguro, tributos de importação, despesas portuárias, armazenagem e variação cambial entre a negociação e o pagamento. Dependendo do produto, ainda há exigências técnicas e de certificação a cumprir antes da venda.
Há também custos que não aparecem em nota fiscal. Um lote com defeito recorrente gera devoluções, desgaste com clientes e peso sobre a assistência técnica. Um fornecedor que atrasa a entrega no início da alta temporada compromete o faturamento do período inteiro. O preço mais baixo, sozinho, diz pouco sobre o custo real da operação.
Por que a visita ao fabricante muda a negociação
Ver uma linha de montagem funcionando revela o que nenhum catálogo mostra. É possível avaliar organização, padrão de soldas, procedência de baterias e motores, rotina de testes e até a forma como a fábrica lida com reclamações de outros clientes. A visita também permite conferir se a empresa que aparece na negociação é de fato a fabricante ou apenas uma intermediária.
As viagens empresariais à China, um dos capítulos da trajetória de Fredy Restrito, ilustram esse ponto. O contato presencial ajuda a construir uma relação comercial de longo prazo, na qual se negociam não apenas preços, mas especificações técnicas, garantia e fornecimento contínuo de peças de reposição. Para quem vende veículos que precisam de manutenção, essa última condição pesa tanto quanto o valor unitário.
Importação como parte da operação, não como compra isolada
Em última análise, entende-se que tratar a importação como evento pontual leva a decisões de curto prazo. Tratá-la como parte da operação muda a pergunta: em vez de “qual é o mais barato?”, passa a ser “qual fornecedor sustenta minha empresa nos próximos anos?”. Um parceiro confiável vale mais que um desconto obtido uma única vez.
Essa mudança aparece na estrutura. Estoque planejado, centro de distribuição capaz de receber grandes volumes, equipe técnica que conhece cada modelo e peças disponíveis para reposição são consequências de uma importação feita com critério. Na visão de Fredy da Silva Gonçalves Bento, é essa combinação, e não o preço de catálogo, que permite transformar o comércio com a China em base para uma rede de lojas preparada para crescer por meio de franquias.










