A morte de Marcelo Miranda, segundo governador do estado, reacende o debate sobre a geração que estruturou as instituições sul-mato-grossenses a partir do zero
Mato Grosso do Sul perdeu, na manhã da última terça-feira, 23 de junho, uma das figuras mais importantes de sua história política. Marcelo Miranda Soares, segundo governador do estado e ex-prefeito de Campo Grande, faleceu aos 87 anos em um hospital da Unimed na capital, onde estava internado há cerca de 20 dias com complicações de uma pneumonia severa. Segundo a família, a pneumonia agravou um quadro crônico de problemas renais e cardíacos, que evoluiu para falência múltipla dos órgãos. Mineiro de Uberaba, Miranda chegou ao Centro-Oeste para trabalhar em obras de infraestrutura e acabou por ajudar a construir, do zero, um estado inteiro.
O governador Eduardo Riedel decretou luto oficial de três dias logo após a confirmação do óbito, com a publicação em edição extra do Diário Oficial. As bandeiras das repartições públicas estaduais foram hasteadas a meio-mastro. A Assembleia Legislativa também decretou luto e abriu as portas para o velório, realizado no saguão Nelly Martins da ALEMS, na quarta-feira (24), em cerimônia aberta ao público. O sepultamento ocorreu no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Campo Grande.
Engenheiro, prefeito, governador: uma trajetória construída tijolo a tijolo
Marcelo Miranda Soares nasceu em 1º de dezembro de 1938, em Uberaba (MG), e se formou em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia de Uberaba. Sua mudança para o Centro-Oeste ocorreu motivada pelo trabalho na construção da Usina Hidrelétrica de Jupiá, entre Três Lagoas e Castilho, no interior paulista. Depois, passou a integrar o Departamento de Estradas de Rodagem do então Mato Grosso, participando da implantação de cerca de 4,5 mil quilômetros de estradas vicinais em uma região que ainda carecia das mais básicas condições de infraestrutura.
Sua entrada na política aconteceu na década de 1970, após convite do então governador Pedro Pedrossian e do ex-prefeito Levy Dias para disputar a prefeitura de Campo Grande. Miranda venceu as eleições e administrou a capital entre 1977 e 1979. Em maio de 1979, renunciou ao cargo para assumir o governo de Mato Grosso do Sul por nomeação presidencial, sucedendo Harry Amorim Costa, que havia sido exonerado pelo presidente João Figueiredo em circunstâncias que geraram uma pequena crise institucional no estado recém-criado. Foi Miranda quem conduziu o estado durante seu período de organização inicial, incluindo a criação de nove novos municípios a partir de distritos rurais.
O governador que voltou pelo voto e enfrentou a tempestade
Após o primeiro mandato como governador, Miranda foi eleito senador da República em 1982, exercendo o mandato até 1987. Naquele mesmo ano, voltou ao Palácio do Parque dos Poderes como governador eleito pelo voto direto, desta vez pela via democrática que o Brasil reconquistava gradualmente. O segundo mandato, encerrado em 1991, foi marcado por dificuldades financeiras. O estado enfrentou greves prolongadas no funcionalismo público e atrasos recorrentes no pagamento de servidores, reflexo da crise econômica que assolava o Brasil naquele período.
Mesmo assim, o período foi marcado por avanços na organização administrativa do estado e pelo fortalecimento do municipalismo sul-mato-grossense. Em 23 de outubro de 1987, por exemplo, Miranda assinou pessoalmente a Lei Estadual nº 768/87, que criou o município de Chapadão do Sul, hoje um dos mais prósperos do Centro-Oeste. Seu neto, o deputado estadual João Henrique, lembrou durante o velório que o avô viveu para “realizar e construir” e que deixa um legado que vai além de qualquer mandato. Nos anos seguintes à política ativa, Miranda atuou como superintendente regional do DNIT em Mato Grosso do Sul, entre 2003 e 2012, ligando sempre seu nome à infraestrutura do estado.
A geração que construiu o estado e o que ela representa hoje
A morte de Marcelo Miranda Soares traz à tona uma questão que vai além do luto: qual é o peso das primeiras gerações políticas de Mato Grosso do Sul na memória coletiva do estado? MS completa 47 anos de existência em 2026, e muitos dos homens que participaram de sua estruturação inicial já não estão entre nós. Miranda representava um tipo de político formado fora das siglas e das alianças partidárias contemporâneas, cuja trajetória passava pela engenharia, pelas estradas, pelas obras que conectavam municípios que ainda não existiam no mapa.
A cerimônia de velório reuniu familiares, amigos de décadas e lideranças políticas de diversas gerações, incluindo nomes que hoje disputam o governo estadual nas eleições de 2026. A diversidade de gerações presente no velório foi ela própria um retrato do espaço que Miranda ocupou na história de MS. Seu filho Paulo Henrique lembrou que “o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul começou com ele”. Não é uma afirmação gratuita. Para um estado que completou 47 anos, a geração de Marcelo Miranda é a geração fundadora, e sua partida é, também, o lento fechamento de um capítulo que não se repete.
Fontes: Capital News | Midiamax | Diário Digital | Boca do Povo News
Autor: Diego Rodríguez Velázquez










